"(...) The greatest tragedy of this period of social transition was not the strident clamor of the bad people, but the appalling silence of the good people."
- Martin Luther King
Mais do que tudo, o que me chocou em todo o incidente do telemóvel na sala de aulas do Carolina Michaëlis, foram as palavras de incitamento por parte do imberbe que filmou a cena. Só ontem é que me apercebi do porquê da náusea que senti ao ver tudo aquilo. É que aquelas palavras, agressivas e reveladoras de uma torpeza de carácter indescritível, trouxeram-me à memória um incidente que se passou comigo quando tinha dezassete anos...
Tudo se passou na Avenida Almirante Reis em Lisboa, em plena luz do dia, numa zona movimentada e quando esta avenida ainda não era o horror chunga dos dias que correm.
Mesmo agora e tantos anos depois, quando me lembro do bando de seis ou sete marmanjos que me cercou para começar a apalpar-me à vez, sinto uma revolta imensa dentro de mim e não consigo conter algumas lágrimas.
Contudo, o que me feriu e chocou mais, foi a impassividade dos três homens com idade para serem meus pais, que conversavam ali mesmo ao lado e para quem eu olhei desesperada, na esperança de me ajudarem. Mas, em vez disso, e para meu horror e aflição, riram-se e fizeram comentários de incitamento a tudo aquilo. Um dos comentários que me ficou na memória foi um "deixem lá um bocadinho para a gente". Nojentos de merda. Se naquele tempo já existissem telemóveis com câmara, aposto que teriam filmado tudo.
Lembro-me vagamente de me começar a defender e de a coisa ter descambado para um enxerto de porrada, porque era suposto eu ter aceite tudo aquilo sem me opor...
Ainda hoje, fico sobressaltada quando ouço passos atrás de mim na rua e há muito que deixei de contar com a ajuda de estranhos quando estou em apuros.
Curioso. Custou-me mesmo muito relembrar e escrever sobre este incidente que há muio trazia guardado dentro de mim.










