Os meus amigos telefonam-me para saber de mim e fazem-me companhia quando os meus demónios me atormentam e não me querem deixar adormecer. Gostam de mim quando estou bem ou mal disposta e não se zangam com o meu silêncio. Se puderem, safam-me quando estou à rasca de massas mas, se não puderem, riem-se comigo enquanto fazemos contas à vida. Oferecem-me um tecto quando tenho inundações e companhia quando me sinto a pessoa mais solitária do mundo. Dão-me a mão enquanto espero nas urgências de um hospital ou pelo resultado de um exame assustador. Também ralham à fartasana e dão-me carolos quando sou parva. Por vezes, chateiam-se e desligam-me o telefone na cara. Os meus amigos têm uma pachorra do caraças e não sei como é que ainda me aturam. Talvez porque eu também faço isto tudo por eles. Não sei. Os meus amigos fazem-me sentir que a amizade é mesmo uma riqueza que não tem preço mas quando ganharem o Euromilhões, vão dar-me um milhão de euros - porque sabem que, se não o fizerem, terão uma psicótica à perna. Também me fazem escrever coisas bastante lamechas como esta. São poucos, mas valem por mil e curto-os à brava.
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